Sexta-feira, setembro de 2004, tarde escaldante de primavera aqui no cerrado, céu parcialmente nublado. Muito calor mesmo, uma preguiça paira no ar, as pessoas que pelas ruas passam com semblantes cansados e suados, mascarando talvez suas alegrias, nem pássaros revoam.
No tocador de MP 3 portátil, Nina Simone faz a trilha, singing Love me ou Leave-me.
O calor escaldante aumenta o barulho dos carros, das motos, também do ônibus. Estamos assim inertes, parados, quase mortos, impacientes a espera da chuva que não vem.
As pessoas tentam se esquivar do calor, impossível enquanto não chover, adoro banhos de chuva mas no momento me contento com uma garrafa de água mineral
Um sol de rachar, o asfalto quente faz tremular as faixas ao chão, molho meu corpo, pessoas me olham assustadas, sim não resisto Ao inferno que está esta cidade e sem importar com o que os outros pensarão ou mesmo comentarão, batizo-me em plena via pública.
Sim, estou me batizando, heresia?! Se for eu não sei, mas verto a água fria e gelada sobre a minha cabeça, um frio me percorre o corpo, ela agora escorre pelo pescoço, molhando-me a roupa, refrigerando-me o corpo e alma. Pareço um louco, sim tenho certeza disto, mas o importante é saber que não sou.
Pessoas me olham, alguns me reprovam, outros riem, outros ainda pensam que cara louco, outros pensam que inveja de ser livre. Sim, sou e estou livre para fazer as minhas (a)normalidades.
E continuo a verter aquela abençoada água antes contida naquela garrafinha de plástico, escorre pela camiseta branca, já um tanto transparente, um cara parado na porta de um banco me olha e passa a língua entre os lábios, é desejo, é tezão, e despudor, a evangélica passa ao meu lado brandindo a bíblia sobre a minha cabeça e me xinga de devasso, de tarado, ela assim como o guarda do banco está com os hormônios à flor da pela, ela com sua Bíblia exalando um cheiro asqueroso de suor, quase me batendo.
Excito-me, é indisfarçável.
E água me despe, deixando-me quase nú, já não ligo mais.
E como se nada tivesse acontecendo saio andando com a roupa úmida e o corpo refrescado, já não sente mais calor apenas tezão, bendita garrafa de água mineral
Nina Simone- Love-me or Leave-me | My Way | Ne Me Quit Pas
Quando chegar a primavera se esqueça das tardes cinzentas
Alegra ti pelas cores magentas.
Quando tornar vir a primavera diga não
E nem se perca no que se foi em vão
Eleja sim, um amor primaveril
De cor sutil
Quando chegar a primavera esqueça os caminhos de dores
Percorra a estrada das cores.
Veja o céu cor de anil
Quando chegar a primavera estarei mais sutil
Cantemos e dancemos com a primavera.
Louvemos as flores e os pássaros.
O inverno acabou,os dias cinzentos também.
É primavera
deixemos as flores iluminar os nossos jardins internos,
dancemos e dancemos,
cantaremo o amor
cantaremos porque é bem vinda a primavera