João acordara naquela manhã nem alegre e nem tão triste, apático. Estava tranqüilo com o rumo que decidira dar a sua vida, o momento era de muita introspecção, agora teria que ir sozinho, recebera alta do terapeuta por 3 meses.
O dia parecia para ele se arrastar, as horas não tinham a urgência que ele tanto desejava, mas aprendera que o tempo, senhor do destino, também tinha seus caprichos. Então resolvera que iria sair para uma caminhada matinal, apesar do tempo seco e do sol escaldante àquela hora da manhã, munido de um bom tênis, um bermudão, camiseta e um boné, agora mais que nunca era preciso tomar certos cuidados para que não se repetisse novamente o processo que ainda tratava.
Sem rumo definido deixou-se guiar pelo coração, então se viu em um bosque, já não tão bonito como há alguns anos atrás, o tempo seco contribuía em muito pelo aspecto de abandono, sentado em uma de suas alamedas começou a lembrar-se de como conhecera Pedro.
Era uma tarde lá pelos idos anos 90, no mês de novembro. Uma rápida troca de olhares e parecia que se conheciam há tempos, uma garoa fina caía quase que continuamente, tudo estava verde e florido, depois de algum tempo novamente se reencontraram, aliás João não se movimentara, ficara observando as pessoas que ali transitavam àquela hora da tarde imaginado o que cada um carregava dentro de si, dores, amores prazeres,prazeres, enfim cada um tinha sua bagagem.
Pedro então ao passar por João, olha-o insistentemente, e este, lhe retribui cumprimenta ndo com um aceno de cabeça, como se o convidasse para juntar-se a ele em seus interlóquios silenciosos, ao aproximarem-se os olhares, já não escondiam de João que alí na sua frente estava talvez um grande amor, conversaram por horas e horas, naquele momento o tempo tinha a velocidade da luz, tudo tão rápido, o Sol aos poucos ia tingindo o horizonte de vermelho, de laranja, de púrpura, a noite se avizinhava.
Era tudo muito novo para aqueles dois!
João já era um cara experiente, vivido, adorava a balada, às vezes fumava um baseado, mas era sangue bom, Pedro um rapazote ainda na casa dos seus 18 anos, um olhar indecifrável que ainda persiste, conversaram sobre música, poesia, sonhos, trocaram naquele mesmo dia o primeiro beijo, como cenário a relva verde coberta de flores amarelas.
Absorto em suas lembranças recordara-se que anos mais tarde receberia um cartão com uma paisagem similar, onde se lia: o que isto te lembra?
A noite chegou o céu se abriu em um mar de estrelas, e João então começou a falar das constelações, Escorpião era todo visível mostrou-lhes as mais importantes, e deitados no chão continuaram a conversa, falou-se de Fernando Pessoa e sua poesia, falaram de medos.
O céu conspirava a favor daquelas duas almas, as horas passadas tão rapidamente foram percebidas, Pedro ainda tinha que cumprir horários.
Então Pedro foi acompanhado por João, que acabou passando o número de seu telefone...
João agora estava de volta, no mesmo lugar, a árvore que foi testemunha da primeira conversa, dos primeiros olhares, caiu nas primeiras chuvas de Dezembro depois que Pedro se fora levando junto um pedaço de João, que mesmo muito tempo depois tem a certeza que sobreviveu a tudo e a todos, fizera o percurso de volta pra casa, pensando que ainda era um sujeito de sorte, começou a cantarolar, uma música de Chico Buarque, que não cantava fazia já muito tempo:
Não se afobe não que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
No fundo de um armário
Na posta restante
Milênios milênios no ar
E quem sabe então o Rio será
Alguma cidade submersa,
Os escafandristas virão explorar
Sua casa, seu quarto, suas coisas
Sua alma
Sábios em vão tentarão decifrar
O eco de antigas palavras fragmentos
De cartas poemas mentiras retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe não que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
FUTUROS AMANTES quiçá se amarão sem saber
Como o amor que um dia eu deixei pra você
A LUA BRILHA, ENCIMESMADA BRILHA
Solitária brinca
Rasga a noite,
Corta o céu
Prateando as folhas
Iluminado os caminhos
Cercada de estrela, brinca
Dona da noite,
Das Saudade
Dos amores perdidos
Dos amores vindo
A lua então cansada
se esconde
Levando as lembranças,
se esvai
E nela vejo refletido você!