Sonhos de Ícaro
Outros Sonhos


Quinta-feira, Abril 01, 2004


Passaram-se quarenta anos desde o Golpe Militar, mas para algumas pessoas parece que foi ontem, e falo com conhecimento de causa, fui uma dessas pessoas que vivenciou esse período, onde tudo era proibido ou imoral.
Meu pai uma pessoa que considero muito apesar das divergências em algumas coisas, mas um homem maravilhoso, ele não me viu nascer como fizera com minhas outras duas irmãs, quando do meu nascimento ele estava summido, lá pelos idos de 66, é um período da história que ele não gosta de falar e respeito isso.
diz minha mãe que ele nessa epóca estava no Mato Grosso, são poucas as lembranças dessa epóca com ele, nenhuma foto até 1970 mais ou menos.
Lembro-me de que ainda criança, na casa onde eu nasci, cresci e moro até hoje, os quartos tinham janelas de madeira jacarandá, resistentes, cadeados, numa epóca em que se dormia com as roupas penduradas no varal, como as banderolas de São João.
Dormíamos minha mãe, minhas irmãs e e eu trancados no mesmo quarto, tínhamos um ritual, ela lia o Salmo 23 e oravamos, ela sempre pedia Adeus e a Virgem Maria que olhasse por nós, pelo meu pai de paradeiro incerto, perdido em algum lugar doBrasil, pelo meu tio que nunca mais tivemos notícias, sumiram com ele,ainda hoje minha mãe pergunta por onde andará, sabemos que nunca mais o veremos.
Numa dessas entre outras tantas noites, relembro com se tivesse acabado de acontecer, estavamos trancados no quarto, sim trancados com móveis escorando a porta, como numa barricada, já nos preparavamos para dormir quando começaram com uma tentativa de arrombamento dessa janela, gritos, pancadas fortes, numa tentativa de intimidá-la, xingamentos que não compreendia na epóca,
Estavamos na era do medo.
E foi assim por um bom tempo, algumas palavras eram proibidas, vários livros escondidos durante anos, não sabia o porque, a única coisa que sabia e tinha certeza é que minha mãe nunca foi mulher de se intimidar, era uma resistência forte dentro dela mesma, admiro-a por isto e outras coisas.
Cresci mais um pouco, mas ainda não tinha a noção do que acontecia no nosso país, assitia ao Vila Sésamo e Garibaldi, assitia aos desfiles civicos militares com alegria, eu era criança e não tinha noção do que se passava no país, otempo passou e só ouvia os rumores de que fulano ou beltrano havia desaparecido, algumas pessoas se forma para nunca mais voltar, outras voltaram e já não eram mais as mesmas.
Vi cenas de repressão, ainda me doi na alma!
Lá fora parecia que tudo ia bem, mas quantas vidas foram ceifadas neste período.
Cresci, comecei a ler além do que me era própria a idade, lia Jorge Amado, Subterrâneos da Liberdade, considerado subversivo, mas gostava, aos quinze me enganjei no movimento estudantil, na luta pela meia passagem estudantil, já pensava na igualdade entre os pares, fui preso, aos dezesseis fui pra UJS, não compartilhava de lagumas idéias, mas era a forma por mim encontrada para protestar, fui levado para o moviemnto estudantil pelas mãos de minha irmã, que hoje não está mais entre nós, mas a vida continua.
Fiz comício pelo Movimento Diretas Já, fui a Brasília, pedir para um país mais justo, sempre cercado pelos olhares atentos e por vezes reprovadores de minha mãe, mas ela sabia que não me seguraria, já estava por devaras envolvido.
Conheci o PT, militei sem filiação por que acreditava ser um partido coerente de oposição aos que alí estavam, eramos clandestinos, a manifestação popular me emocionava, nas Rádios já ouvíamos Geraldo Vandré, na voz da bahiana Simone entoando aquele que seria o hino de toda uam geração Para dizer que não falei das Flores, e na voz de Milton Nascimento, Coração de Estudante, o movimento anarquistra crescia, era um tempo de liberdade nunca antes sentida, fiz grandes e leais amigos, de luta, de leitura, choro e riso, havia um ideal na minha geração.
O Tempo passou, continuo a acreditar que um dia teremos um mundo melhor, um país mais justo, quando eu era adolescente pedia que acabasem com as torturas as corrupções, hojep eço que dêem ao povo brasileiro dignidade!


Mensagem deOrion Quinta-feira, Abril 01, 2004

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